Por Ana Paula de Araújo, Cleber Arruda e Leandro Machado
Mais uma manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus estava marcada para as 17h de ontem (17/2) em frente à sede da Prefeitura de São Paulo, no centro da capital. Exatamente nesse horário, uma forte chuva espalhou os ainda poucos manifestantes em busca de proteção pelas proximidades.
Cerca de 20 minutos depois, eles conseguiram uma trégua com São Pedro e voltaram a se concentrar no local. Diego Aparecido Vieira de Lima, 24, vendedor ambulante na região há 14 anos, ficou sabendo por meio de um cartaz poucos minutos antes e correu para lá, com apitos e capas de chuvas, para suprir o pessoal. O apito custava R$ 2 e as capas eram o preço da passagem de ônibus, R$ 3. “Não vendi muito não. Se a chuva começar, o preço não sobe”, garantiu.
Diego, que mora em Francisco Morato, usa transporte público todo dia _além do trem, paga R$2,10 no ônibus em sua cidade. Enquanto conversávamos com ele, percebemos que o ambulante também apoiava a causa: Diego bradava, junto aos demais manifestantes: "Três, três, três reais não dá! Eu quero passe livre, passe livre já!".
A aposentada Josefa da Conceição, 67, segurando uma das pontas da faixa que trouxe da zona sul, estava desapontada. “Fui funcionária pública por 16 anos, sem aumento. Tenho meu passe livre, mas não consigo engolir a discriminação quando dizem que os idosos dão prejuízo por isso. Nós andamos em pé nesses ônibus lotados”, reclamou.
Uma opção ao transporte público, a bicicleta, também foi colocada em pauta por alguns manifestantes. Foi o caso de Guilherme Silva, 21, que, embora faça parte da Bicicletada _movimento inspirado no Massa Crítica, onde pessoas no mundo inteiro rodam apenas com veículos à propulsão humana_, sabe que as condições não são as melhores para quem decide adotar as duas rodas. Ele explica: a bicicleta é aconselhável para quem roda até 7km, realidade bem diferente de quem tem que sair das periferias para trabalhar ou estudar na região central.
Do outro lado da rua, o capitão Amarildo Garcia, responsável pelo batalhão militar presente, observava o movimento tranquilo. “Temos 100 homens, é uma manifestação pacífica, como as outras que vem ocorrendo”, disse.
Mas para sua surpresa, por volta das 18h45, o tempo fechou novamente. Alguns jovens derrubaram as grades de proteção e planejaram uma invasão do espaço ocupado por policiais. O resultado foi outra tempestade, com nuvens e trovoadas das bombas atiradas pelos militares acompanhadas de rajadas de tiro de balas de borracha. Correria, olhos vermelhos e lacrimejantes, garotas caindo e tensão, muita tensão.
Em meio à correria, um grupo de estudantes, cuja idade máxima era 15 anos, procurou abrigo no Shopping Light, a alguns metros da Prefeitura, onde os seguranças fechavam os portões. Luiza Annoni, 14, contou que ela e seus colegas pegam ônibus lotado todos os dias para poder estudar e, por isso, adotaram a manifestação. O mais surpreendente foi encontrar com o mesmo grupo de adolescentes perto da sede, minutos depois, quando alguns já pensavam em dispersar. Ao cair da noite, eles permaneceram firmes, bradando gritos de guerra em frente à praça do Patriarca.
O estudante Emanuel Lucas, 16, foi pego de surpresa por um dos tiros que atingiu sua nuca. “Estava do outro lado rua quando a confusão começou perto da grade. Longe da briga. Se tivesse de frente, certamente teria sido atingido no rosto”, deduziu.
Durante a confusão, um homem identificado como Vinícius Boim foi agredido violentamente por policiais e levado para o Hospital do Servidor Público Municipal.
Mas o protesto estava longe de acabar. Os manifestantes voltaram a se reunir e, depois de uma volta pelas ruas do centro, retornaram para frente da Prefeitura, onde seis jovens ligados aos movimentos sociais haviam se acorrentado, desde a manhã, no saguão do prédio. Alguns partiram para atos de vandalismo e destruíram lixeiras, espalharam lixos e picharam paredes.
Por volta das 22h, os militantes que continuaram na frente da prefeitura ainda gritavam, faziam marchinhas e procuravam organizar uma votação para definir os próximos passos do protesto _como decidir se os jovens acorrentados deveriam continuar o ato no saguão.
Carlos Novack, 25, é um dos muitos paulistanos que enfrentam o desafio de acessibilidade em uma cidade como São Paulo, mas isto não o faz ficar parado. Carlinhos, como gosta de ser chamado, sempre está procurando algo para fazer e busca sempre ajudar as pessoas.
Ele mora com sua mãe há 23 anos no Jardim Damasceno, zona oeste de São Paulo, porém diz que não costuma sair muito pelo bairro, pois não consegue andar por ele. “Se eu precisar comprar alguma coisa no meu bairro ou eu fico sem, ou eu fico sem”, diz. Decidimos então ir até os lugares onde ele mais freqüentava para ver quais são as dificuldades que um cadeirante enfrenta em sua região.
Nossa viagem começou na porta da casa de Carlinhos, onde uma rampa foi construída para que ele conseguisse entrar e sair sem dificuldades. No dia que eu o acompanhei, um carro estacionado na frente atrapalhava nossa passagem, e tivemos que descer por um outro ponto da calçada. Caminhamos até o ponto de ônibus, pelo meio da rua, pois a calçada é estreita e cheia de buracos, e fica quase impossível até para um pedestre que não precisa se locomover em cadeira de rodas passar. Ao chegar à calçada do ônibus a guia novamente rebaixada ajuda Carlinhos a subir: “Esta rampa não foi feita pela prefeitura. Meu irmão, com ajuda da comunidade, que fez isso, para me ajudar”.
Carlinhos diz que, se têm algum compromisso, tem que sair de casa com duas ou três horas de antecedência, pois não são todos os ônibus que são adaptados para que ele possa subir. Uma lotação sentido terminal Cachoeirinha chega e com a ajuda do cobrador, Carlinhos é erguido até o espaço destinado a cadeirantes dentro da lotação.
Fazemos uma baldeação no terminal Cachoeirinha para o ônibus Metrô Santana, onde todos já conhecem Carlinhos e nos ajudam para que ele embarque com mais segurança. Ao chegar na estação do metrô Santana mais um desafio: sair do ponto de ônibus e chegar até o metrô, um percurso curto, mas que tem alguns obstáculos, como a calçada novamente cheia de buracos e a movimentação constante de pessoas com pressa.
Carlinhos e eu embarcamos no primeiro vagão do metrô e nossa próxima parada é a estação Paraíso. Ao chegar ali, mais uma surpresa: o elevador de acesso para cadeirantes está quebrado e não há outra opção a não ser se arriscar na escada rolante com ajuda de alguma boa alma.
Na avenida Paulista, a situação é muito diferente. As ruas são largas e as travessias de pedestres são tranqüilas. Às 13h, duas horas depois de sair do bairro Jardim Damasceno, estamos na rádio do programa de humor que havia entrevistado Carlinhos no dia anterior (por causa de uma foto, ele teve seus 15 minutos de fama). Carlinhos entra ao vivo e depois tira algumas fotos com os participantes do programa.
Carlinhos decide então ir até a Santa Ifigênia, reduto da tecnologia no centro de São Paulo. Fui com ele até estação São Bento, onde mais um elevador do metrô está em manutenção e ele precisa aguardar por volta de 8 minutos até um agente da estação vir ajudar. Ao sair da estação percebemos que a região do centro não está nada preparada para atender a população cadeirante. Carlinhos briga por espaço novamente com carros e ônibus.
Terminamos nosso percurso na estação rodoviária do Tiête, onde Carlinhos precisa comprar uma passagem para Minas Gerais, pois vai viajar com sua namorada na próxima semana _ali, os acessos são muito bem adaptados.
No final, percebi que este único dia foi vencido para um cadeirante que precisa fazer um esforço muito maior para realizar pequenas coisas. Apesar disso, percebo que Carlinhos gosta mesmo é de ajudar as pessoas, pois, ao nos despedirmos, diz que precisa correr para casa para arrumar o computador de sua irmã.
Um dos principais patrimônios históricos do bairro de São Miguel Paulista, zona leste da cidade de São Paulo, é o Mercado Municipal Dr. Américo Sugai, inaugurado em 1967. Em duas décadas, o local foi o principal centro de comércio para produtos hortifrutigranjeiros e fez o comércio de rua no entorno crescer. Segundo a Associação Comercial, o bairro de São Miguel é o terceiro maior comércio de rua na cidade, seguido pela rua 25 de Março e região do Brás.
A partir da década 90, o mercado municipal começou uma fase ruim. A freguesia deixou de frequentar os corredores do mercado, os investimentos do setor público eram poucos e quase não existia manutenção na infraestrutura do prédio. Alguns comerciantes foram embora. Em 1989, o relógio foi retirado, pois deixou de funcionar e nunca foi consertado. Para Alcides Pereira, 76, fazia falta: "Quando eu chegava próximo da estação, sempre consultava o relógio da torre do mercado para saber se o trem já tinha passado.”
Em 2008, moradores tradicionais do bairro e lideranças se reuniram e formaram um grupo de trabalho para revitalização dos principais pontos históricos de São Miguel. Dentre eles, o mercado municipal foi indicado como o mais importante pelos antigos moradores. O movimento sensibilizou várias entidades sociais da região e pessoas com alguma influência política na administração regional e os investimentos começaram a chegar. O arquiteto Rui Othake fez o projeto de revitalização com visão futurista e doou ao mercado.
Em dois anos, o mercado teve o piso interno e externo trocado, telhado reformado, as paredes externas foram pintadas com texturas de várias cores, um novo relógio foi instalado na torre da caixa d’água e uma rede sem fio (wi-fi) para acesso à internet foi instalada, para uso gratuito de todos os frequentadores.
Os próximos passos prometidos são a construção de um pavilhão para abrigar 18 boxes e uma área de refeição com comidas típicas.
Segundo a administração, o mercado de São Miguel ainda vai oferecer o melhor sanduíche de mortadela da cidade de São Paulo. Assim a história do mercado sai do papel e entra na vida das pessoas...
Próximo aos bares e casas de shows da Barra Funda, mas não com a mesma popularidade dos pontos de diversão,está o Conjunto Desportivo Baby Barioni.
Como resultado de uma parceria entre a Secretaria Estadual de Esporte, Lazer e Turismoe a Confederação Brasileira de Kick Boxing, a entidade oferecegratuitamente aulas da luta em centros de exercícios espalhados pela capital e no interior paulista.
“O plano começou em 2009 e hoje temos 150 praticantes neste espaço. Aqui, os atletas da modalidade têm a oportunidade de aprender noções básicas do esporte, fazer exame classificatório (para conquistar a faixa correspondente ao seu nível) e recebemuniformes gratuitamente”, diz o professor Carlos Eduardo Alves Rocha, responsável pelo centro de treinamento no Baby Barioni.
Os alunos ainda podem competir com lutadores de outras regiões de São Paulo e do país. Mas para isso, eles têm de se esforçar. “Nós não temos frescura, homens, mulheres e crianças são tratados com igualdade e precisam mostrar interesse em participar das competições”, reforça Rocha.
Ao ser questionado sobre a importância do kick boxing para os praticantes, Rocha não vacila. “O mais interessante é ver que os jovens deixam de fazer ‘coisas ruins’ nas ruas depois que começam a frequentar o espaço. É importante lembrar que o esporte desenvolve várias habilidades em quem o pratica”, completa.
Para participar das aulas de kick boxing, basta ir até o espaço Baby Barioni, que fica na rua Dona Germaine Burchard, nº 451, às segundas, quartas ou sextas-feiras, das 10h30 às 19h. Leveduas fotos 3x4, uma cópia dos documentos RG e CPF, um comprovante de residência e, é claro, sua força de vontade.
A Escola Técnica Estadual (Etec) de Paraisópolis, inaugurada no dia 29 de março de 2010, iniciou o ano letivo na semana passada (10/2) com muitas cadeiras vazias. Com 14 salas de aulas, biblioteca, três laboratórios de informática, além de um laboratório de línguas, as centenas de alunos que cursam o ensino médio são maioria esmagadora frente aos que apostam nos cursos de ensino técnico.
Mas qual a explicação para isso? Dentre todos os jovens que entrevistei, nenhum deles soube dizer o que exerce um profissional formado em "segurança do trabalho" ou em "logística", por exemplo. E eis aqui uma realidade que deve ser levada em consideração. Por exclusão, o curso de informática foi apontado por todos como a única opção.
Para Rafael Rodrigues dos Santos, 21, faltam cursos voltados às artes. O jovem participa de um grupo de dança contemporânea no CEU Paraisópolis e há três anos faz parte de um grupo de dança afro, na Vila Madalena. “Achei incrível como ficou a Etec de Paraisópolis, linda, grande, porém, faltaram mais opções de cursos”, diz o dançarino.
Para o primeiro semestre de 2011 foram oferecidos os cursos de contabilidade, informática, logística, segurança do trabalho, além do ensino médio regular. No vestibulinho do 1º semestre de 2011, houve a abstenção de 16%. Muitos cursos não tiveram nem candidatos suficientes para o número total de vagas _o curso técnico de informática do período vespertino, por exemplo: das 40 vagas oferecidas, somente 28 candidatos realizaram a prova.
Sabrina Aparecida de Jesus tem 18 anos e é estudante do 2º ano do ensino médio na Escola Estadual Homero dos Santos Fortes, em Paraisópolis. No final do ano passado, ela frequentou a Etec Paraisópolis _o espaço foi cedido para a realização de um curso de turismo realizado pela União Municipal dos Estudantes Secundaristas (Umes). A jovem, que está grávida do primeiro filho, cursou dois dos três meses do curso. “Desisti, porque a professora não dava aula direito. Chegava à sala dizendo que estava com preguiça ou ficava falando da vida pessoal”, conta.
Danielton Pereira Santos, 23, prestou, no ano passado, o vestibulinho para o curso de técnico em informática. Ficou em 13º lugar, mas não realizou a matrícula. “Faltou coragem e não tive mais tempo, por causa do trabalho”, afirma. Mas o motoboy garante que neste ano as coisas vão mudar: “Vou voltar a estudar. Sei a importância que são os estudos”.
Caroline Evangelista Fernandes, 15, aluna do 1º ano do ensino médio, na Escola Estadual Maria Zilda Gamba Natel, garante que nenhum professor orientou os alunos quanto aos cursos técnicos e que nunca observou qualquer tipo de divulgação sobre os cursos na escola onde estuda. “Dentre os cursos que você falou agora, eu escolheria informática, pois é o único que sei o que faz”, diz.
Janaína Cardoso Santiago, 23, concluiu o ensino médio há três anos, mas parou de estudar assim que engravidou da filha Sophia, 3, e começou a trabalhar em uma farmácia, na região da avenida Paulista. “Chego tarde em casa. Tenho de cuidar da minha filha. Não tenho mais tempo.”
Veja a demanda de algumas escolas técnicas de São Paulo comparadas a Etec Paraisópolis
·Etec Dona Escolástica Rosa - Segurança do Trabalho (noite) – 15,7 candidatos/vaga
·Etec Prof. Aprígio Gonzaga– Segurança do Trabalho (noite) - 13 candidatos/vaga
·Etec Paraisópolis – Segurança do Trabalho (tarde) – 0,98 candidato/vaga
O Centro Paula Souza, por meio de sua assessoria de imprensa, informa que os cursos técnicos oferecidos em cada Etec são escolhidos de acordo com a demanda por profissionais na região, sempre pensando na empregabilidade dos alunos.
A Etec Ruth Cardoso, em Paraisópolis, começou suas atividades no 1º semestre de 2010. Atualmente, tem 120 alunos no ensino médio e cerca de 600 no ensino técnico.
Por se tratar de uma escola nova, tem sido feito um trabalho de esclarecimento com a comunidade para motivar os estudantes a prestarem o vestibulinho, processo seletivo semestral. A divulgação dos processos seletivos é feita por meio de cartazes nos locais de grande movimentação nas proximidades da Etec, além dos meios utilizados pelo Centro Paula Souza: o portal (centropaulasouza.sp.gov.br), o twitter (@paulasouzasp) e outras redes sociais. No portal, os alunos podem ter informações sobre todos os cursos, bem como na secretaria da Etec.
O curso de segurança do trabalho (noturno) é o mais disputado da unidade, ou seja, o interesse dos estudantes não se restringe ao curso de informática.
Com relação ao curso de turismo promovido pela União Municipal dos Estudantes Secundaristas (Umes), o Centro Paula Souza reforça que a Etec apenas cedeu o espaço para sua realização, não sendo responsável por sua qualidade.
Leia mais no Mural:
Paraisópolis quer educação de qualidade, por Vagner de Alencar
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