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Blog dos correspondentes comunitários da Grande São Paulo

 

"Prefeitura de Ferraz de Vasconcelos instala uma câmera na minha rua"

Por Leandro Machado

Nada de muito importante acontece na minha rua. No último mês, o assunto principal era uma cachorra que, doida de pedra, latia a noite inteira e não deixava ninguém dormir direito. Na semana passada, porém, um novo assunto se impôs à vizinhança: instalaram uma câmera no meio da rua.

“Que coisa estranha é essa?”, pergunta Maria das Dores Machado, 57, dona de casa e minha mãe, numa manhã de domingo. “Parece uma câmera”, eu digo, olhando para o objeto instalado em um poste a alguns metros da minha casa.

“Parece coisa do Big Brother”, diz Doralice Barbosa, 55, minha vizinha, aparecendo no muro que divide as duas casas. “Imagine, mãe, deve ter um cara sentado em uma sala escura olhando para nós agora”, digo. “E vendo a gente estender a roupa... A gente sempre fica na calçada conversando sobre a vida dos outros, agora existe alguém para olhar a nossa também”, constatou Doralice.

Foto: Renan Odorizi

Segundo a Prefeitura de Ferraz de Vasconcelos, cidade onde moro na Grande SP, serão instaladas 35 câmeras de monitoramento em pontos estratégicos do município. Minha rua foi classificada assim: ponto estratégico. Também foi reformado o prédio do Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGIM), o bunker onde ficam os observadores da minha rua. Ainda segundo a Prefeitura, o plano de segurança custou R$ 1,2 mi, recurso vindo diretamente do governo federal.

Câmeras de monitoramento viraram moda nos últimos anos. Em busca de segurança, elas estão posicionadas estrategicamente em condomínios, elevadores, corredores, grandes avenidas e ruas pacatas como a minha, tornando a nossa vida mais ou menos um enorme reality show fora da TV.

As imagens servem para flagrar crimes e seus autores, além de identificar assassinos, ladrões, maus motoristas e outros degenerados. Servem principalmente para aumentar a nossa sensação de segurança, a nossa impressão de que existe alguém olhando por nós. A tecnologia não é, afinal, o deus da modernidade?

Foto: Renan Odorizi

Às 23h30, ando por minha rua. Um senhor, que, se não me engano, se chama Juarez, guarda as tralhas que vende durante todo o dia: sapatos velhos, livros didáticos, bonecas destruídas, roupas. Seu ponto de venda fica em frente à câmera, de modo que ele é observado o dia inteiro. Aparentemente não se importa com isso.

Vejo um bêbado. Ele anda tropeçando nos degraus que só existem para os bêbados. De repente ele para, olha para o poste onde fica a câmera, abre o zíper da calça e urina ali mesmo. Além de mim, ninguém viu. Ou quase ninguém.

Leandro Machado, 22, é correspondente comunitário de Ferraz de Vasconcelos.
@machadoleandro
lmachado.mural@gmail.com

Escrito por Blog Mural às 13h39

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Internet conecta família de Campo Limpo a seus sonhos

 
Por Patrícia Silva

 

Atraída pelo discurso do vendedor, Eva Aparecida do Nascimento, 45, comprou seu primeiro computador. “Em até 12 vezes sem juros”, anunciava o homem magro e convincente na tela da TV. A zeladora não hesitou e, com a ajuda da filha e do marido, finalmente pode se conectar.

 

Para Eva, a facilidade de crédito estimula o consumo das pessoas mais pobres e, por isso, a periferia está em constante transformação. “Quando eu era mais nova, era difícil comprar uma televisão a cores ou um videocassete. Hoje em dia, pode ser barraco, mas você entra e tem um aparelho de som potente. Tem gente na favela que compra televisor de plasma”, conta a moradora do bairro de Campo Limpo, na zona sul da capital paulista.

 

O computador da família veio no fim de 2010. A conexão à internet, no começo deste ano. A mulher de pele bonita e tranças no cabelo descobriu que não era velha demais para fazer parte do Orkut ou do Facebook. Também aprendeu a baixar músicas, tratar imagens e a usar o Youtube. “Eu gosto de ver fotos, assistir novelas antigas e mandar recados. Até encontrei uma sobrinha que mora em Sapopemba que há muito tempo não via”, diz Eva, satisfeita, sobre a utilidade das redes sociais.

 

 

Os quatro filhos da zeladora também aproveitam as utilidades do novo aparelho. Como estudantes, eles eram obrigados a frequentar LAN houses da região e casas de amigos para os trabalhos da escola.

 

Depois que a filha mais velha Gisela, 23, entrou na faculdade, e a demanda por pesquisas aumentou, a situação teve de mudar. Por isso, a família decidiu comprar o computador para, posteriormente, fazer sua conexão à internet.

 

O estudante Anderson Faustino Basílio, 14, filho do casal, encontrou por meio da internet a sua vocação. Quer ser DJ. E para investir naquilo que considera um “talento especial”, montou um grupo de funk com cinco amigos.

 

DJ Neguinho, como deseja ser chamado, também baixa softwares de mixagem e observa bases musicais no Youtube. Ele também acompanha vídeo-aulas para aprimorar sua técnica. Mas a maior parte de seu aprendizado ele faz sozinho, conta orgulhoso.

 

 

 

Hoje, na família, todos da casa têm acesso à rede, com exceção do pai, o ajudante geral Aguinaldo Faustino Basílio, 48, que, meio sem jeito, justifica dizendo ter “medo de quebrar”. “Eu não mexo em nada, mas sei que é uma coisa boa”, afirma.

 

Patrícia Silva, 22, é correspondente comunitária do Campo Limpo. 
@Patricia_Aps
patriciasilva.mural@gmail.com

Escrito por Blog Mural às 16h38

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Universitária do Cocaia vê a vida pela janela dos coletivos

 
Por Suevelin Cintia

 

A vida paulistana é vista diariamente através das janelas dos coletivos. Seus problemas e desencantos são quase jargão, pois não existe nada mais popular do que as reclamações do trânsito caótico da cidade. Essa é a realidade de trabalhadores e estudantes que se deslocam a partir dos extremos da cidade em direção ao centro todos os dias.

A universitária Paula Farias, 23, mora na zona sul, no bairro do Parque Residencial Cocaia, Grajaú. Ao sair da faculdade na região da Chácara Santo Antônio, às 22h45, tem de pegar quatro ônibus para chegar em casa. Em dias de sorte, segundo a estudante, leva pouco mais de 1h30 no trajeto.

Sua rotina começa no ponto da universidade até o passa-rápido do Rio Bonito, depois vai até o terminal Grajaú e ali pega a lotação para o Cocaia.

 

 

“Li em um boletim que os ônibus grandes estavam causando muito trânsito, por isso eles tiraram a linha do Cocaia do terminal Santo Amaro em setembro, antes disso eu ia até sentada”, conta. Paula explica que é mais fácil fazer toda essa baldeação do que esperar os ônibus que demoram nesse horário.

“Já cheguei a esperar uma hora o Cocaia, sem contar que eles vêm lotados do centro, e quando passam no ponto da faculdade mal dá para entrar”.

Durante o ensino médio, a jovem lembra que em sua escola não havia biblioteca e que precisava pegar um ônibus até Santo Amaro para retirar livros na biblioteca pública mais próxima.

Como outros universitários moradores das periferias, Paula não se detém a esse conflito cotidiano: seu sonho é maior.

A estudante, que se forma o ano que vem em comunicação, acorda cedo e dorme tarde, e não reclama de perigo: “Moro há muito tempo na região, tem um posto policial perto de casa. Mas a segurança não vem do Estado, vem da comunidade, porque aqui todo mundo se respeita”.

 

 

Suevelin Cintia, 19, é correspondente comunitário de Parelheiros.
@suevelincinti
suevelin.mural@gmail.com

Escrito por Blog Mural às 15h27

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As várias visões do Rock in Rio

Por Daniela Araujo

Escrito por Blog Mural às 13h40

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