Mural

Blog dos correspondentes comunitários da Grande São Paulo

 

Uma crônica para o Dia do Professor

 
Por Karol Coelho

 

Não é fácil ser professor, ainda mais em escolas públicas. Dar aula para centenas de alunos de todos os tipos e com vários problemas sociais, econômicos e até psicológicos, ter um salário “de fezes” e não ter recursos didáticos à disposição não é nada incentivador. Mas eu encontrei profissionais que passavam por cima desses problemas.

 

Na 5° série conheci a Soraya. Ela dava aulas de língua portuguesa e me ensinou como dividir o ano em semestres, bimestres e trimestres, e quando a gente não entendia nada da matéria, ela respirava fundo e explicava mil vezes até entendermos.

 

Karol e a professora de português Soraya, em 2003


De artes, tive boas aulas com o Nelson. Conhecemos o samba de roda e o teatro de bonecos. O caderno era usado para registrarmos as aulas do jeito que achávamos melhor _ com texto, desenhos ou com que inventávamos. Era uma aula em que me sentia livre.

 

No mesmo ano conheci o professor de história, o Julio. Foi apenas nesse ano que tive aula com ele, mas até hoje não nos falamos por telefone por menos de 15 minutos. Ele é desses professores que quando pisam na escola, vários alunos o cumprimentam. Aprendi mais quando meus amigos e eu o encontrávamos pelos corredores da escola do que em sala de aula. Ele me explicou o filme “Matrix” e, junto ao Edson, me incentivou a participar do Grêmio Estudantil.

 

O professor Edson me ensinou geografia por três anos _a gente se estranhava às vezes, mas não me recordo o motivo. Suas aulas eram sérias e ao mesmo tempo irreverentes. Ele ia além do espaço geográfico, falava sobre política e quando um pequeno grupo de alunos resolveu fazer reclamações _porque às vezes ele falava um palavrão_, ele nos mostrou como éramos hipócritas, pois a maioria dos alunos falava palavrão e alguns até xingavam os professores.

 

A Gil me deu aulas de português também por três anos. Certa vez ganhei uma nota nove por causa de “uma vírgula” e ela disse para eu acertar tudo na próxima prova. Encarei como um desafio. Espertinha, ela conseguiu fazer com que eu merecesse um dez.

 

Na 8° série, a Gil se prontificou a dar aulas extras para duas amigas e eu, porque queríamos fazer uma prova para entrar em um colégio particular no ensino médio. Não conseguimos passar, mas até hoje tenho meu caderno de português e o consulto. Detalhe: ela me apresentou Os Karas de Pedro Bandeira.

 

A professora Lulimar, de ciências, nos fazia apresentar os trabalhos mais loucos. Dediquei-me demais a eles, levando cobras em vidro e uma tartaruga para um seminário sobre os répteis, por exemplo. Ela tem aquele estilo de cientista de desenho animado, sabe? Lulimar nos fazia sentir e descobrir nossa competência.

 

Esses professores não me davam logo a resposta de nada, mas me faziam pensar.

 

Será que é por isso que a classe não é respeitada?

 

Por que eles têm o poder de nos fazer pensar desde pequenos?

 

Acho que é por isso.

 

 

Karol Coelho, 20, é correspondente comunitária de Campo Limpo.
@karolcoelho_
karol.mural@gmail.com

 

Escrito por Blog Mural às 15h28

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Música e dança conquistam o CEU de Perus

Por Jéssica Moreira

 

Depois de meses de ensaio, calos nos dedos e até tendinite, os integrantes do grupo All Strings estrearam terça (11/10) seu primeiro espetáculo “A Dança das Notas", no CEU Perus, zona norte de São Paulo.

 


A apresentação misturou  música clássica e popular com dança, performance e, ainda, interação didática com a plateia, apresentando um pouco de teoria musical e as diferenças entre os  instrumentos utilizados _contrabaixo, violino, viola, violão, violoncelo e saxofone.

O grupo se formou em junho de 2010, quando ingressaram no Projeto musical Guri, da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo em conjunto com a organização social Santa Marcelina.

“O que vocês viram hoje é fruto do nosso trabalho, das discussões e troca de ideias”, disse Duda Moreno, artista orientador de dança do Projeto Vocacional.

 


Segundo Talita Rodrigues, violista do grupo, eles se reúnem pelo menos três vezes por semana para ensaiar. A violista diz _rindo_ que já ficaram até “sem beber, sem comer e sem dormir” por conta dos ensaios, mas, no final, tudo valeu.

O repertório do grupo vai de Mozart a Black Eyed Pears. Segundo eles, o projeto faz a ponte entre o erudito e o popular. O espetáculo trouxe até balé para o palco, com a música “Ciranda da bailarina”, de Chico Buarque.

O público era formado por muitos jovens, entre amigos e alunos de escolas da região. “Isso é uma coisa que nos dá muito orgulho, como pais, de ter filhos envolvidos com música”, disse emocionada Marilene Barbosa, mãe de dois dos integrantes da orquesta _Joab (saxofonista) e Lucas (violonista).

 


No dia 30/10 o grupo se apresenta no CEU Perus novamente. Vale a pena conferir!

Para saber mais clique aqui.

 

 

Jéssica Moreira, 19, é correspondente comunitária de Perus.
@gegis00
jessicamoreira.mural@gmail.com

 

Escrito por Blog Mural às 11h03

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Com o que sonham as crianças da periferia?

Por Priscilla Vierros

 

Hoje é o Dia das Crianças, os comerciais da TV não nos deixam esquecer. Certo? Carrinhos de controle remoto, bonecas que falam e uma lista enorme de brinquedos. Mas será que é só com isso que sonham os pequenos? E as crianças da periferia com o que sonham?

 

Baseados nessa pergunta, Daniel Neves de Faria e Toni C resolveram ouvir as crianças da comunidade. Decidiram, por meio de um projeto da ONG Orpas, transformá-los em autores de suas próprias experiências.

 

Resultado: o livro “Um sonho de periferia”, que reúne histórias de moradores do Capão Redondo, na zona sul da capital paulista.

 

Entre tantos desejos, as crianças querem um mundo melhor. Onde possam ter acesso a estudo, segurança, se formar nas profissões que escolheram, ajudarem suas famílias. É, parece que viver vale mais do que ter!

 

Estranho. Dias atrás, vi em uma reportagem que os eletrônicos são os preferidos da molecada. A matéria foi gravada em um shopping e meninas e meninos respondiam que brinquedos não estavam mais na moda. Sapatos, roupas, maquiagem, celulares... isso sim, era o que eles queriam.

 

Conversando com crianças do meu bairro, Guaianases, que moram há cerca de 70km de turminha que participou do livro, descobri que por aqui os sonhos são os mesmos. E as preocupações também _não de andar com a roupa da moda e sim de ter um mundo com mais segurança e menos poluição.

 

Katia R. Silveira tem 8 anos e sonha, como a autora do trecho abaixo, em ser médica. Sua irmã Suellen, 11, quer ser cantora. Já Izabela Cristina S. Fonseca, 10, sonha em ser professora de matemática.

 

Aos 10, Izabela Cristina sonha em ser professora de matemática

 

As amigas Ana Beatriz S. Silva, 9, e Carolina de S. Eugênio, 11, querem ser professoras também, o que mais gostam de fazer é ler. Eric Brito, 9, sonha em ser um grande jogador de futebol.

 

As amigas Ana Beatriz, 9, e Carolina, 11, que querem ser professoras

 

Ana Carolina S. dos Santos, 14, adora brincar de pular corda com os amigos. Queria ter um computador para poder se conectar com o mundo e faz um pedido: para que as pessoas parem de jogar lixo nas ruas. É extrovertida, brincalhona e ficou feliz em poder falar (e ser ouvida).

 

Ana Carolina tem 14 anos e pede que as pessoas parem de jogar lixo na rua

 

Será que damos condições para que nossas crianças consigam viabilizar todos esses desejos?

 

Lá no Capão Redondo, Daniel e Toni C pensaram nisso. Eu também.

 

“Com cinco anos de idade respondi uma pergunta na maior inocência. O que eu queria ser quando crescesse. Mesmo sem saber tracei o meu destino e descobri que a partir dali deveria criar um hobby [...] por um simples motivo: sou PPP (Preta, Pobre, da Periferia). Criei um hobby: corrida.

Corri atrás de ser aluna de destaque em colégio público.

Corri atrás de uma bolsa em um dos mais caros colégios particulares de São Paulo.

Corri atrás de igualdade no mesmo colégio.

Corri atrás da minha primeira viagem internacional.

Corri por causa dos meus sonhos... Corri tanto por causa de uma simples pergunta que respondi quando criança. Carrego no bolso a arma mais poderosa que conheci: a arma de sonhar. Quando crescer quero ser médica, respondi.”

 

Trecho extraído do livro: "Um sonho de periferia", organizado pela ONG Orpas. O texto é de Domenica C. Dias, 19, que se prepara para cursar medicina na Universidade de Córboda, Espanha.

 

 

Priscilla Vierros, 27, é correspondente comunitária de Guaianazes.
@privierros
priscillavierros.mural@gmail.com

 

 

 

Escrito por Blog Mural às 10h14

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Na zona leste, "a escola que queremos"

Por Vander Ramos

 

 

Na região do extremo leste de São Paulo é comum encontrarmos adolescentes passeando nos parques em horário escolar. A maioria cabula aulas para ficar entre amigos, pois parece que a escola não oferece atividades que atraem a atenção dos jovens estudantes.

 

A reportagem do Mural foi conversar com os adolescentes para saber que escola eles gostariam de ter.

 

No Parque Municipal Santa Amélia, no Jardim das Oliveiras, na zona leste da capital, encontramos a Andrea, de 15 anos. Ela  estuda em uma escola estadual próxima e diz que os professores estão desmotivados em dar aulas, não respeitam os alunos e vivem repetindo, de forma ameaçadora: "se não estudar vai repetir de ano”. Ela quer uma escola mais motivadora e com atividades voltadas para o jovem do século 21.

 

Vanessa, de 16 anos, que estuda com Andrea, revela que fica no parque pois o local é mais agradável do que as condições em a escola se encontra. "Lá não temos carteiras decentes, são muito pequenas e a maioria está quebrada ou enferrujada."

 

No Parque Chico Mendes encontramos os jovens Diego e Luiz, ambos de 16 anos. Eles estudam na mesma sala e reclamam que na escola sempre falta professor. "Lá sempre estamos com professor eventual [substituto], que só serve para passar a matéria sem saber explicar nada", reclama.  Ele espera mais dedicação dos professores, mas diz que os docentes reclamam em sala de aula que também não têm incentivo do governo para dar aula.

 

O jovem Luiz comenta que no parque sempre aprende algo a mais. "Aqui converso com colegas, troco informações sobre uma matéria da escola e às vezes paquero uma menina de outra sala”, diz.

 

A maioria concorda que aprende mais quando navega na rede do que na sala de aula, onde ainda impera o sistema de "decoreba". "Na internet aprendo mais coisas que eu quero do que na escola, onde o professor não sabe nada sobre o mundo globalizado e livre", diz o jovem Ronaldo, de 17 anos.

 

"Um dia fiz uma pergunta ao professor e ele mandou eu pesquisar na internet", comenta a jovem Camila, 16.

 

A maioria dos entrevistados concorda que a escola precisa mudar, principalmente os professores. "É um sistema que tem mais de 40 anos, que foi criado quando não existia o computador e internet e o aluno tinha que aceitar tudo que o professor dizia e não pode reclamar ou perguntar", diz o estudante João.

 

 

Vander Ramos, 51, é correspondente comunitário do Itaim Paulista.
@vander521
vander.mural@gmail.com

Escrito por Blog Mural às 16h19

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Sobre crianças e a cracolândia no centro de São Paulo

Por Cleber Arruda

 

É decepcionante ver como algumas áreas da região central de São Paulo foram tomadas por crianças e adolescentes sujos, famintos, chamados de “noias”, com olhos inexpressivos e que causam algo que não deveriam pela sua pouca idade: medo.

Ontem, na avenida São João, por volta das 22h, tive o celular tomado por dois deles com uma faca colada à minha barriga. Queriam dinheiro também. Abri minha carteira e ao verem um monte de papel, ficaram frustrados e me dispensaram. Minutos depois encontrei uma viatura, contei o caso e os policiais me levaram na gaiola para um passeio pela região próxima ao Terminal Princesa Isabel.

Sempre ouvi falar sobre a cracolândia e até já assisti alguns programas que mostram a situação. Mas, penetrar aquele universo me deixou hipnotizado. Por três ou quatro quarteirões, as ruas são tomadas por pessoas caídas nas calçadas, vagando como zumbis, com olhares assustados e vagos. São crianças, jovens, velhos, de ambos os sexos, de todas as cores, espalhados por ali, em busca de algo para negociar por uma pedra de crack.

Àquela hora, já até havia esquecido o prejuízo pessoal, a verdadeira sensação de impotência veio com a imagem daquela criançada mordendo a camiseta, com aparência cansada e ameaçadora. Não achei os dois (que me roubaram).  Achei centenas deles.  

O Dia das Crianças está aí. Certamente, não será diferente para aqueles que, em vez de um brinquedo ou algo especial, lutarão por um celular ou uma pedra de crack, com suas roupas rasgadas, fedidas, uma faca na mão, nas ruas do centro da capital mais rica do país.

 

 

Cleber Arruda, 29, é correspondente comunitário do Jardim Damasceno.
@CleberArruda
cleber.mural@gmail.com

Escrito por Blog Mural às 14h27

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