A catadora de papel Helena Farias é forte e, aos 51 anos, garante que consegue carregar até 600 quilos em seu carrinho. “É um dinheiro suado, mas eu gosto!”. No último sábado, porém, véspera de natal, Helena trouxe apenas um carrinho de feira para buscar uma cesta básica, um frango congelado e dois refrigerantes no bar do Urso, no Jardim Helena, na zona leste de São Paulo.

Há cinco anos, o comerciante Carlos Eduardo de Souza, o Urso ou Nené, realiza com um grupo de amigos e fregueses uma ação solidária de arrecadação e entrega de alimentos para catadores de entulho da região. “Eu comecei sozinho e entregava 10 cestas. Aí o pessoal do bar resolveu ajudar. Na primeira vez juntos fizemos 70. Hoje conseguimos fazer 160”.

Catadores fazem fila em frente ao bar para ganhar os alimentos

Durante todo o ano, Carlos distribui folhetos nas ruas e ferros-velhos, avisando os catadores sobre a campanha de Natal. Para adquirir os alimentos, é necessário se cadastrar no bar. Em seguida, ‘Urso’ verifica as condições das pessoas, faz visita às casas e, por fim, monta uma lista com o nome de todos que vão receber as cestas.

“Isso para mim vale tudo, ajuda a gente. O dinheiro que a gente tem pode inteirar para outras coisas”, conta o carroceiro Milton da Silva Limeira, 54, que há 10 anos sustenta a família com o dinheiro que consegue da reciclagem. “Passei da idade e ninguém quer me dar serviço, a solução da gente é a rua. Se não fosse o lixo, a gente ia viver de que?”.

Para conseguir os alimentos, Carlos sempre deixa uma caixinha no bar, onde todos podem depositar “o troco da cerveja”. Neste ano, ele arrecadou R$ 2600, a quantia suficiente para comprar 100 cestas básicas. As restantes foram adquiridas com doações de amigos e também pequenas empresas do bairro.

Carlos, o Urso, entregando a cesta básica para uma catadoras de papel

O aposentado Romeu Sforsim, amigo de Carlos, conta que se comoveu e começou a ajudá-lo depois que escutou ele dizer: “Deus dá tanta coisa pra gente, porque não dividir um pouquinho?”. Ele apóia o amigo na decisão de ajudar os catadores: “Ninguém mexe com lixo porque quer, é um serviço muito ingrato”, comenta.

A entrega das cestas é um dia de festa para todos. As caixas ficam todas na calçada na frente da garagem da casa de Carlos, ao lado do bar, onde os fregueses comem churrasco e escutam pagode. “É uma alegria a gente poder dar algo que alguém não consegue na data de hoje”, afirma o encarregado de obras Ciro França, freguês e vizinho do bar. “Ninguém tem alegria com fome, se você está com Deus e com a barriga cheia, você está em paz”.

Lívia Lima, 24 anos, correspondente comunitária de Artur Alvim.
@livialimasilva
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