Como mulher e moradora do centro de São Paulo sei em quais ruas devo ou não andar sozinha, é algo comum para quem conhece o local onde vive.

Ontem, ao pegar o metrô e descer na estação da Luz, eis o espanto: em volta do local não havia nenhum usuário de crack.

Mas não foi preciso andar muito para encontrá-los, agora espalhados, ou em pequenos grupos, vagando pelas ruas.

Na terça-feira, dia 3, entrou em prática o Plano de Ação Integrada Centro Legal, uma medida da Prefeitura e do Estado de São Paulo para acabar com a cracolândia.

Inicialmente os policiais ocuparam as áreas de maior tráfico e consumo. Depois eles perguntavam aos usuários se eles querem ajuda da rede municipal de saúde e assistência social.

O objetivo é conseguir que um bom número deles saia das ruas e o programa siga com uma meta de bons resultados.

Os coordenadores da campanha acreditam quem a abstinência vai fazer com que os usuários de crack busquem ajuda.

Essa tática é antiga e lembra um ditado popular: “Se não for por amor, vai ser pela dor”.

Não imagino como possa funcionar essa ideia. Um dos primeiros sintomas da abstinência é a agressividade, as autoridades sabem disso, o policiamento não foi reforçado à toa.

Ao entrar em um mercado na avenida Cásper Líbero, a lista de reclamações vinha de todos os lados: clientes com medo de assaltos, alguns já relatando tentativas de furtos e funcionários assustados temendo uma abordagem ao saírem do trabalho.

Neste cenário, uma senhora me abordou para dizer: “deviam obrigá-los a fazer tratamento, levar na marra, onde já se viu pedir com jeitinho para viciado!”.

Eis a primeira questão: existe algum centro de tratamento integrado para tratar dessa doença?

Como moradora do centro, sinto que apanham pessoas doentes e dizem a elas que se espalhem por aí e continuem vivendo sua enfermidade em outros lugares.

Afinal, drogas não são vendidas apenas no centro. O que vai acontecer é a formação de pequenas cracolândias em outros bairros.

No caminho próximo à rua Guaianases, algumas pessoas me perguntaram se eu sabia onde estava mais seguro para pegar um ônibus.

Não sei o que pareceu mais triste, dizer que depois de anos morando na região, eu já não tinha mais certeza, ou saber que antes havia ruas seguras e outras não-seguras, nunca uma cidade ou um bairro totalmente inseguro.

 

Bia Souza, 22, é correspondente comunitário da Bela Vista e região central de São Paulo.
@BiaNaso
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